Alarme
Lembro-me perfeitamente da primeira vez que disse a uma mulher que a
Amava. Não me lembro, no entanto, da primeira vez que o pensei. É que
pensei muitas vezes na palavra Amor antes de a dizer pela primeira vez.
Isso deve-se ao facto de, apesar de ser muito raro apaixonar-me
verdadeiramente, ser muito fácil sentir-me apaixonado todos os dias por
uma mulher qualquer. É uma sensação que desaparece tão depressa como
aparece, mas que nessa sua vida efémera é bastante intensa.
Também é verdade que isto me acontece muito mais facilmente nas fases da
minha vida em que estou só, sem namorada. É como se o meu coração fosse
um apartamento pequenino onde só cabe uma mulher de cada vez e, por
isso, quando está ocupado é-me muito mais difícil sentir algo forte por
alguém. Quando estou só, sou capaz de ter essa sensação de alarme no
metro, no autocarro, num bar qualquer ou até na fila da repartição das
finanças.
Foi precisamente no autocarro que me apaixonei pela Mónica, numa viagem
em que ela adormeceu ao meu lado e deixou a cabeça cair sobre o meu
ombro. É-me difícil explicar, mas quando isso aconteceu eu ainda nem
sequer a tinha visto bem. Ia ao lado dela a pensar noutra coisa
qualquer, mas quando ela se encostou a mim o meu coração acelerou
imediatamente. Apaixonei-me, portanto, pelo toque e fui o resto da
viagem petrificado, a tentar imaginar como seriam a face e a voz dela.
Os cabelos, esses, eu via-os e eram longos e negros. Para não a acordar,
e também para aproveitar esse encosto o mais tempo possível, deixei-me
ir muito para além daquela que seria a minha saída. Regressei a casa
mais tarde, fazendo a pé cerca de três quilómetros.
Foram três quilómetros feitos muito calmamente, em passos curtos e
incertos, a pensar nesse novo Amor da minha vida. Era uma sensação boa,
porque eu sabia que era um Amor que não passava dum desses alarmes que
vão e vêm com o vento. Afinal de contas, tinha-me apaixonado apenas
porque ela adormecera no meu ombro, sem lhe ver bem a cara ou ouvi-la a
falar. Muito provavelmente nem me lembraria dela no dia seguinte.
O problema é mesmo esse: o dia seguinte. Acordei e ela foi a primeira
coisa que me veio à cabeça. Veio e, diga-se de passagem, nunca mais
saiu. De tal forma que nos dias seguintes apanhei o mesmo autocarro
várias vezes por dia só para ver se me cruzava com ela, o que veio a
acontecer cerca de uma semana depois. Vi-a exactamente no mesmo banco e
sentei-me à frente dela, como quem não quer a coisa, e acho que ela me
reconheceu. Pelo menos riu-se timidamente. Nessa viagem, em que
finalmente a vi de frente, confirmou-se a minha paixão. O meu coração
tornou a acelerar terrivelmente e eu fiquei incapaz de reagir.
Durante muito tempo aquelas viagens de autocarro repetiram-se. Cheguei a
fazer um mapa com as horas a que ela apanhava o autocarro e já não
falhava uma única viagem em que ela estivesse. Era sempre o mesmo: eu à
frente dela como se fosse um homem estátua e ela à minha frente como se
não fosse nada. Às vezes ia séria, outras vezes sorria um pouco. Suponho
que tinha a ver com as suas variações de humor e da forma como o dia
lhe tinha corrido. Perdi a conta às viagens que fiz com ela assim, nesse
meu silêncio sofredor.
Nunca falámos um com o outro até ao dia em que ela, uns minutos antes de
sair, me disse que era a última vez que andava naquele autocarro. Ia
viver para Lisboa, onde tinha arranjado um emprego melhor. Eu corei e
encolhi-me perante as evidências. Tchau!, disse ela por fim. Fiquei a
vê-la pela trémula e enorme janela do veículo, lá fora, virada para mim e
a sorrir-me enquanto dizia adeus com a mão. Embaciei o vidro com o meu
bafo e escrevi "Amo-te" ao contrário, para ela conseguir ler. Foi essa a
primeira vez que o fiz.
Bagaço Amarelo
[Este texto... está qualquer coisa...!!]